Melanie luta pela libertação de sua mãe
O relato exclusivo da estudante que luta pela libertação da mãe, Ingrid Betancourt, seqüestrada há seis anos pelas FARC
Por:
Thiago Bronzatto, de Londres
Ela não é religiosa, nem mesmo é ligada a alguma doutrina cristã. Mas todas as manhãs, enquanto caminha na movimentada Times Square, em Nova York, Estados Unidos, a estudante de cinema Melanie Delloye-Betancourt faz suas preces em voz baixa. Repete fervorosamente o nome da mãe, a ex-senadora franco-colombiana Ingrid Betancourt, seqüestrada pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) há quase seis anos. "Às vezes, choro sozinha em meu quarto. Mas quando lembro dos momentos legais que passei com ela levanto a cabeça. Sigo adiante lutando por ela e, conseqüentemente, por mim...", conta Melanie, em entrevista exclusiva para GLOSS.
Melanie tem 22 anos, cabelos pretos, pele muito branca. Convive com a idéia sombria de saber que a mãe está em algum lugar da selva latino-americana junto com outros 700 reféns. Nesses cativeiros - a leste de Bogotá -, os homens são mantidos acorrentados pelo pescoço. As mulheres vivem isoladas, ouvindo ameaças de morte. Quando tentam fugir, levam tiros ou são amarradas umas às outras.
"O presidente do Brasil deveria se empenhar mais nessa causa" - Melanie, cobrando de Lula ações a favor dos reféns
Ingrid Betancourt foi capturada pelas FARC no meio de sua campanha à presidência da Colômbia - no dia 23 de fevereiro de 2002. Melanie falou com ela pela última vez três dias antes do seqüestro. Ingrid andava ocupada. Dividia-se entre a correria de comícios eleitorais e o leito hospitalar do seu pai, que sofrera um derrame. "Antes de desligar o telefone, percebi que ela estava atarefada, correndo com as suas coisas. Para quebrar a sua rotina, disse um carinhoso: 'Eu te amo, mamãe'. E ela retribuiu: 'Eu também, meu anjo'", lembra.
Melanie leva uma rotina bizarra. Nunca sabe se a mãe ainda está viva, nunca sabe se ela pode ser solta a qualquer momento. Faz questão de preservar fotos de Ingrid coladas na porta de seu guarda-roupa. Dedica horas de seus dias lendo notícias internacionais, trocando e-mails não oficiais com emissários políticos e com o comitê internacional Agir Pour Ingrid (
www.agirpouringrid.com) - que conta com cerca de 400 mil assinaturas a favor da libertação dos seqüestrados pelas FARC.
"Melanie sofria calada, não queria comer. Parecia querer suportar tudo sozinha" - Fabrice Delloye, pai de Melanie
A prova de vida mais recente de Ingrid apareceu por conta de uma carta assinada por um dosreféns das FARC, o coronel Luis Mendieta. Na correspondência - entregue pela colombiana Clara Rojas, libertada no mês passado - o militar relata que Betancourt teve de ser transportada na selva em uma rede, por conta de problemas de saúde. "Meu coração ficouapertado", emociona-se Melanie. "Mas, por outro lado, fiquei mais tranqüila em saber que ela está viva", desabafa.
No final do ano passado, o governo colombiano apreendeu objetos esquecidos de reféns na mata. Entre eles, uma imagem de Ingrid com a cabeça baixa, muito mais magra e com longos cabelos. Havia também cartas dela para sua família. "A vida aqui não é vida, é um desperdício lúgubre de tempo. Vivo e sobrevivo em uma rede estendida entre dois troncos, coberta com um mosquiteiro, com uma manta como teto", dizia.
Até o final deste mês, a editora Agir deve lançar no Brasil o livro Cartas à Mãe, uma compilação das correspondências de Ingrid e as respostas dos seus dois filhos, Melanie e Lorenzo. "Espero que o livro comova os brasileiros a também lutar pela causa dos reféns das FARC... E acredito que o presidente brasileiro deveria se empenhar mais nessa causa, assim como tem feito o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, ou o presidente francês, Nicolas Sarkozy", diz Melanie.
No final do ano passado, depois de uma intermediação feita pelo presidente venezuelano, as FARC prometeram liberar alguns reféns. A libertação só foi feita no início deste ano. Ingrid não estava entre eles. "Eu acreditei que passaria o Natal com ela e começaria uma vida menos angustiante. Foi triste não tê-la conosco, porque era o dia do seu 46o aniversário. Mas, apesar das circunstâncias que parecem ser contrárias, acredito que vai valer a pena esperar algumas semanas, talvez meses. Não desanimar..."
"Minha irmã fica abatida, mas confiante. Ela me transmite segurança" - Lorenzo, 19 anos, irmão de Melanie
Desde que a mãe foi feita refém, Melanie assumiu a liderança de manifestações por sua libertação. E demorou para exibir sua agonia. "Por um tempo, assumiu todas as dores da família. Parecia querer suportar tudo sozinha. Sofria calada, às vezes não queria comer. Precisou mudar para Nova York para retomar uma vida normal", diz o pai de Melanie, o diplomata Fabrice Delloye, 56 anos, divorciado de Ingrid desde 1990, em conversa por telefone com GLOSS de onde mora, em Reims, na França.
O irmão de Ingrid, Lorenzo, 19 anos, estudante de direito e ciência política em Paris, concorda: "Melanie é forte, mas não pode carregar esse fardo sozinha. Essa causa é muito grande para nossa família suportar. Ainda bem que contamos com o auxílio de pessoas do mundo inteiro. Quando recebemos a notícia da libertação de alguns reféns, ela ficou abatida. Mas continuou confiante. Ela me transmite segurança".
Quando não está com o microfone nas mãos, Melanie dedica-se aos estudos. "Quero terminar o meu curso de cinema e fazer uma produção sobre o panorama político na América Latina. Acho que mamãe se orgulharia disso." E tenta imaginar como seria um reencontro com a mãe. "Eu não diria nada. Iria apenas abraçá-la e sentir o calor do seu corpo novamente..."
O QUE SÃO AS FARC?
O poder paralelo de um grupo que comete crimes em nome da revolução
Parece um improvável filme de terror, mas no meio da floresta colombiana estão mais de 700 reféns que há anos vivem acorrentados. Apenas 45 deles são presos políticos - os demais foram seqüestrados em troca de dinheiro. Esse poder paralelo é mantido pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, grupo fundado em 1964 por Manuel Marulanda, o Tiro Fijo, que conta com 16 mil rebeldes. Os integrantes das FARC justificam seus crimes dizendo que querem instalar no país um regime de esquerda.
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