Superação - eles deram a volta por cima
Eles viveram grandes tragédias. Mas tomaram a decisão de não se deixar abater pela tristeza.
Por:
Aina Pinto e Patrícia Pinho
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TABATA - ALEGRIA SOBRE RODAS
Tabata Contri não sente nada do umbigo para baixo, mas mantém em seu blog dicas de como levar uma vida sexual feliz, além de ensinamentos para melhorar o uso da cadeira de rodas. Aos 27 anos, Tabata é técnica nesses equipamentos e conquistou, como consultora sobre o assunto, a independência financeira. Ela ainda trabalha como atriz em musicais. Foi conhecendo pessoas que passaram por experiências semelhantes às suas que a ex-gerente de lojas aprendeu a conviver com as conseqüências do acidente sofrido em 31 de dezembro de 2000, quando o carro em que ela viajava para o litoral paulista despencou em um barranco. "Sofri uma lesão irreversível na medula. Sabia que não voltaria a andar", lembra. "Muitos conhecidos passaram a me tratar com pena e cheios de cuidados. Mas o que fez me sentir melhor mesmo foi encontrar, no Hospital Sara Kubitschek, em Brasília, gente que sabia ser feliz mesmo diante das limitações e me incentivava a tocar a vida." Tabata perdeu alguns amigos, mas ganhou muitos outros. Ela acha normal que seja assim - afinal, qualquer guinada na vida, seja de que natureza for, provoca despedidas e novos encontros. "Teve dias em que eu fiquei super-revoltada. Em outros, chorei um monte. Mas já não sofro mais. Me achei."
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FERNANDO - PASSADO A LIMPO
Se há algo realmente íntimo, é a memória. Pois Fernando Alves Pinto perdeu exatamente isso - essa caixa da própria vida. Em agosto de 1996, voltando de bicicleta de uma aula de música, em São Paulo, passou por um buraco e foi jogado contra um carro. Ficou em coma durante uma semana. "A imagem que eu guardei é a de um precipício, de que morrer seria bom.", diz o ator, 38 anos.
Foram nove meses de tratamento e conversas com pessoas que ele não reconhecia mais. "Memória é uma coisa muito preciosa", conclui ele, que só se sentiu realmente bem depois de um ano e hoje em dia fala de neurologia e estímulos cerebrais com desenvoltura.
Fernando há muito tempo guardava cadernos com impressões e os procurou para se lembrar das coisas, mas credita ao contato com a música boa parte da recuperação. "Fé também ajuda bastante, mas não essa coisa religiosa. Fé é querer, não importa a crença", acredita ele, que hoje faz meditação e ioga para "segurar a onda da cabeça". As lembranças foram voltando como arquivos que se abrem repentinamente. Mas ainda hoje, quando pega os cadernos com anotações, não reconhece tudo imediatamente. "Pelo que eu me lembre", brinca, "minha memória nunca foi lá grande coisa. Acho que está tudo igual ao que era antes."
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CRISTIANA - AMOR E DORCristiana Guerra costuma dizer que só sobreviveu aos dois últimos meses de gravidez porque o coração do bebê que ela carregava, Francisco, bateu por ele e por ela. Aos sete meses de gestação, esta publicitária de 37 anos, de Belo Horizonte, perdeu o amor de sua vida - Guilherme, o pai do menino. "Era um tempo tão feliz, eu agradecia todo dia por estar com o homem que mais amei, esperando um filho dele, num emprego legal", conta. "Às vezes, as pessoas falam que eu devo dar graças a Deus porque o Gui não morreu em um acidente ou assalto, mas ninguém tem a noção da violência que foi para mim a suavidade da morte dele. Simplesmente não existe explicação." Guilherme sofreu morte súbita, aos 38 anos, e foi Cris quem o encontrou, caído no chão da sala. Essa não foi a primeira grande perda que enfrentou. Seu pai e sua mãe morreram de câncer e ela passou por dois abortos espontâneos no primeiro casamento.
Diário para um bebêDepoimentos sobre sua história de vida
estão no em seu blog, que Cris criou quatro meses depois do nascimento de Francisco para apresentar o pai a ele. "Quando consigo transformar a dor em um texto sensível, ela se transforma também. Apesar de tudo, não teve um dia em que eu não tenha ficado alegre, porque meu filho é o meu amor pelo Gui andando pela casa." Escrever, e a proximidade dos amigos, a ajuda a tentar driblar a tristeza. Ela até colocou em
prática um blog sobre moda. "Era uma idéia antiga, que eu vinha discutindo com o Gui", diz. "Mesmo ele tendo ido embora, eu continuo sendo a pessoa melhor que ele me tornou. Por isso nosso amor foi e é tão bonito."
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KRISTIE - QUASE UM MILAGREQuem vê Kristie Hanbury, 37 anos, às voltas com seus cinco filhos ou jogando pólo em cima de um cavalo não consegue acreditar que ela já foi tetraplégica. Quando tinha 17 anos, a ex-modelo carioca estava em um shopping center no Rio de Janeiro quando uma porta despencou quebrando seu pescoço. Depois do acidente, ela podia mexer apenas um dos dedos da mão e os olhos. Apaixonada por esportes, se recusou a aceitar a situação. Não é exagero dizer que protagonizou um quase milagre. "Sou obsessiva-compulsiva. Tive uma atitude absurda." Depois de arrumar confusão em um hospital nos Estados Unidos, exigindo mais tempo de fisioterapia, Kristie foi desafiada por um médico, que a deixou no chão, chorando. Ao perceber que podia se arrastar, gastou horas para atravessar uma sala. "Como não sentia os machucados, deixei um rastro de sangue no chão", lembra, comparando a cena a um filme de terror. O tal doutor, que havia se curado de poliomielite, foi quem a ajudou. Guiada por ele, iniciou um tratamento com 16 horas diárias de exercícios. Dois anos depois, recuperou os movimentos. Foram mais oito até voltar a caminhar sozinha. Hoje integrante do primeiro time de pólo eqüestre feminino do país, ela nem tem medo de cair do cavalo. "Qualquer pessoa corre riscos o tempo todo. Mas não gosto de shoppings."
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THAYSE - FELIZ POR INTEIROThayse Guedes, 20 anos, já foi abordada algumas vezes nas ruas de Maceió, onde mora, por gente curiosa em saber sobre o problema que a fez perder as mãos e parte das pernas. Qualquer um que comece a conversar, logo esquece desse detalhe. É assim que ela enxerga a falta de parte do seu corpo. Bonita, vaidosa, festeira, Thayse só perde a paciência quando quem se aproxima dela nas baladas resolve lhe contar os próprios dramas. É como se, por ter experiência com o sofrimento, ela pudesse compreender melhor a dor alheia. "Ah, não gosto disso, não! Se estou na festa, é para me divertir", diz.
Não à tristezaEla fez uma opção pela felicidade. Aos 13 anos, contraiu meningite e teve de passar por amputações. Quando saiu do hospital, não queria voltar a estudar e ficou envergonhada ao receber a visita das primas após a cirurgia. Mas escolheu reaprender a nadar. "Não seria fácil viver longe do mar. Me esforcei muito para conseguir cair na água nessa nova situação. Hoje fico horas na praia, na boa."
A lista de planos de Thayse é extensa e inclui posar para uma campanha de lingerie. Ela vive viajando - já foi até à Alemanha - por conta de sua participação nos trabalhos de uma ONG dedicada a ajudar meninas portadoras de deficiências físicas. Foi por meio desse projeto que começou a modelar. Ela também quer se candidatar a vereadora e sonha em ter filhos. Namorado ela já tem. "Conheci o Rodrigo numa clínica em que fiz um tratamento. Ele trabalhava lá e perdeu o emprego por minha causa, porque é proibido namorar pacientes. Mas valeu a pena! Estamos superapaixonados."
PARA VER
[murder] Murderball
Direção: Henry Alex Rubin e Dana Adam Shapiro
PARA LER
[viagem] Depois Daquela Viagem
Autora: Valéria Polizzi
Editora: Ática
[velho] Feliz Ano Velho
Autor: Marcelo Rubens Paiva
Editora: Objetiva
[paula] Paula
Autora: Isabel Allende
Editora: Bertrand Brasil
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