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Separador
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Lar, coletivo lar

Lar, coletivo lar

Dividir apartamento pode construir grandes amizades ou, ao contrário, destruir boas parcerias. A melhor dica para fazer isso dar certo é discutir a relação, sempre


Por: Sandra Soares

A diretora de arte Marinês Mencio, 26 anos, queria estampar a parede da sala com coqueiros e flamingos. E estampou - depois que deixou a casa  dos pais e foi morar com amigos. No apartamento que divide com duas pessoas, ela ganhou liberdade para decorar tudo do seu jeito, mas também um problema bem debaixo do nariz: as baforadas da fotógrafa Adriana de Souza, 24 anos, a Nana. "Não suporto cigarro", diz Marinês. "Por causa disso, eu e a Nana tivemos uma megadiscussão num dia em que lavei o cabelo e dois minutos depois senti que ele estava cheirando a nicotina." Nana, que justamente por ser fumante ocupa o único quarto com varanda, não conseguia ficar confinada ao fumódromo doméstico. "É que quando eu morava com a minha mãe, fumava pela casa toda", explica ela. "Me acostumei assim." O terceiro morador do apê, o analista de sistemas Hesley Carvalho, 27 anos, esperava apenas poder receber os amigos quando decidiu se mudar para lá. E tratou de deixar isso bem claro. "Foi tranqüila a negociação porque nós três adoramos ter gente por perto", diz.

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Marinês, Nana e Hesley são mestres na principal regra para fazer a divisão de apartamento funcionar - falar, falar e falar. Além de discutir a relação com freqüência, eles mantêm um quadro-negro na cozinha, onde deixam recados uns para os outros (às vezes, frases fofas, às vezes, reclamações).

"Todo mundo tem 'nóias'. É importante conhecer as de quem mora com você"

CARA FEIA NO ELEVADOR
Se soubessem da importância do blablablá, as amigas Déb ora Brandt, produtora de moda, 24 anos, e Silvia Feola, 23 anos, estudante de filosofia, teriam evitado colocar a amizade em perigo quando moraram juntas por dois anos. "Brigávamos tanto que tivemos de nos afastar", lembra Débora. "O diálogo era zero, a intimidade, demais, e uma acabava folgando com a outra", completa Silvia, que depois da "separação" se mudou para um apartamento no mesmo prédio. As duas voltaram às boas depois de seis meses trocando grunhidos no elevador - tanto que Silvia hoje não sai da casa que Débora divide com outras três meninas. Agora os direitos e deveres de cada uma no lar, coletivo lar, são sempre debatidos.

"Todo mundo tem nóias e é importante conhecer as de quem mora com você", diz Débora. "Eu, por exemplo, não admito louça suja na pia, então as meninas evitam", conta a estudante de medicina Fernanda Bosi, 27 anos. Além do respeito pela mania alheia, o quarteto se dá bem porque quase nunca se encontra. Nem para fazer as fotos para GLOSS as meninas conseguiram conciliar horários. "Dormimos duas em cada quarto e o apê é pequeno. Se a gente se esbarrasse sempre seria bem difícil", diz Fernanda.

AMIGAS NO DIVÃ
É o caso da artista plástica Thais Albuquerque, 27 anos, e da assistente de direção Gabriela Boghosian, 24. Como as duas são freelancers, há dias em que não têm trabalho e por isso passam muito tempo juntas.

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Quando resolveu deixar a casa dos pais, Thais saiu ligando para todos os nomes de sua agenda para tentar encontrar alguém com quem dividir um apê. "Hoje não faria isso, sei que é preciso escolher com cuidado", diz. "Me dei muito bem com a Gabi, mas a convivência me fez perceber como sou difícil. Não é qualquer um que me agüentaria." Thais é do tipo que emburra quando algo lhe desagrada e, pior, não explica o motivo. Foi assim até a noite em que um amigo de Gabi chegou bêbado para visitá-la e acabou dormindo na sala. Thais o flagrou pela manhã no sofá, ao lado de uma imensa mancha de baba. Calou a boca por dois dias. "Tive de insistir para que a Thais se abrisse. Rolou e desde então a gente conversa sempre", comemora Gabi.

ATENÇÃO ÀS ZONAS DE CONFLITO

  • Estabelecer regras claras na hora de acertar a divisão de apartamento ajuda a evitar brigas futuras. É bom trocar idéias sobre:
  • COMIDA
    Há quem prefira ir ao supermercado separadamente - no apê de Marinês, Nana e Hesley, por exemplo, o armário da cozinha tem uma porta para cada um deles e as prateleiras da geladeira são divididas. "É melhor assim, para não correr o risco de alguém comprar algo e quando for procurar já ter acabado", diz Marinês.
    Já nas outras duas casas desta reportagem tudo é de todos. "Achamos meio egoísta cada um ter o seu", diz Débora Brandt.

    CONVIDADOS
    Deixem claro se é permitido levar amigos em casa a qualquer horário. E mais: Preciso avisar antes? Posso trazer ficantes para dormir no meu quarto?

    DECORAÇÃO
    Nem todo mundo liga para isso. Geralmente quem tem mais talento para a coisa fica encarregado. Mas se mais de uma pessoa tiver esse perfil, pode haver conflito.

    PRIVACIDADE
    É bom deixar claro que seu quarto é lugar sagrado caso não suporte gente mexendo nas suas coisas. Hesley Carvalho brigou com um grande amigo (e colega de casa) depois que descobriu
    que ele "assaltava" seu guarda-roupa. "Uma vez o vi na rua vestido com uma camisa minha, mas quando perguntei ele jurou que não tinha usado. Até que, meses depois, achei no bolso de um casaco meu um bilhete que era ele. Aí o cara não teve como negar que
    folgava comigo."

    LIMPEZA
    Tem gente que, acredite, adora lavar louça. Então, não custa perguntar quais as preferências de cada um e tentar organizar a definição de tarefas por gosto. O jeito é fazer rodízio daquelas que
    não agradam a ninguém. Quem tem manias de higiene (do tipo não suportar cabelos no chão) deve deixar isso claro de cara, para que todo mundo saiba que, se rolar reclamação, não é nada pessoal!

    CONTAS
    Além de definir quem vai ficar encarregado dos pagamentos, é preciso discutir como as despesas conjuntas serão divididas. A conta de telefone, por exemplo: Cada um vai pagar a sua parte ou o valor total será dividido por todos?

PARA VER
Albergue Espanhol, do francês Cédric Klapisch.

Bem-Vindos, do sueco Lukas Moodysson.


Fim Foto: NINO ANDRÉS

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