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  • Jonia Lacerda Felício
    Doutora em Psicologia Clínica pela Universidade de São paulo (USP), chefe no serviço de psicologia do Instituto de Psiquiatria do Hospital das clínicas da FMUSP. Coordenadora do curso de Psicologia do Centro Universitário São Camilo.
  • Já tentei de tudo, mas a gente não se entende

    Preciso muito de orientação. Sempre busquei a auto-ajuda e consegui vencer vários obstáculos em minha vida sozinha. Desta vez, estou casada há pouco mais de um ano e não estou conseguindo lidar com um problema. São em três pontos básicos que nós sempre brigamos:

    - Faço quase tudo que ele quer e do jeito que ele gosta, mas ele nunca está satisfeito;
    - Basta eu dar a entender sobre alguma coisa que eu queira para ele não querer fazer;
    - Ele não consegue lidar com as situações controversas. Simplesmente, sai andando, senta longe de mim e fica mudo e birrento durante dias

    Já tentei sentar, conversar, entender, compreender, elucidar, escrevi, dei exemplos, apresentei fatos e não sei mais o que fazer. Ele é uma pessoa tensa, vive nervoso internamente, mas passa a imagem de uma pessoa muito dócil, educada e calma.

    Janaina, 34 anos, designer, São Paulo, SP

Um ponto de sua questão chama a atenção: a excessiva disponibilidade que você tem em relação a seu marido ("faço tudo o que ele quer"). Pense bem: porque ele teria que lutar para agradar-lhe se você é tão voltada ao bem dele? É como se vocês estivessem desempenhando estes papéis: um é o príncipe sempre gratificado; você é a gata borralheira, que não abandona a sensação de falta. Quando você quer algo, ele diz "não", como se entendesse que é da sua natureza ou condição saber tolerar tanta frustração. Você concorda com isto? E é mesmo você que tem que levá-lo à satisfação plena, se é que isto existe? Não pode deixá-lo pra lá quando ele se mostra tão insatisfeito? Afinal, sua vida e felicidade não podem depender só da satisfação e gratidão dele. Há o seu trabalho, suas amigas, família, leituras, mil outros espaços na vida... Porque tanta aflição em você com esta insatisfação que é uma condição dele?

Uma mulher que vive um bom casamento me contou: "quando meu marido está mal, insatisfeito, deixo-o lá, no cantinho dele. Quando ele se acalma, me procura e aí nós nos entendemos". Ou seja, nos casamentos, há a necessidade de que os parceiros se distanciem naqueles momentos em que um deles tem que se haver com coisas pessoais, que não são do casal. Conversas e brigas demais podem ser uma busca de grude, uma excessiva proximidade que só provoca a sensação de invasão em um e de ingratidão no outro. Proteja-se!

Não é pelo confronto infinito que seu marido mudará. E não se pode casar demais, ou seja, esperar que tudo dê certo, que um complemente inteiramente o outro. Vá com menos sede ao pote deste casamento. Mantenha-se voltada também às outras partes da sua vida, que enriquecerão sua capacidade de afastar-se um pouco do seu marido quando ele estiver tão longe de você. Espere por ele. Não é só você que deve ficar na posição ativa, hipergenerosa. Confrontos e discussões infinitas não mudam nada se não mudarmos os papéis. Dê espaço para que ele tenha que lutar por você. Algo assim: "bom, se você nunca pode ir aos filmes que eu gosto, não fique chateado, mas às vezes vou ter que ir ao cinema com minhas amigas..." Ou: "está bem, nisto é como você quer, mas naquilo vai ter que ser mais do meu jeito". A gata borralheira deve achar que merece ser princesa. Um grande abraço.

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