Vamos ser logo muito claras, Maria Christina: o fato de TODAS as suas relações amorosas serem via internet nos traz dúvidas, sim. No início, todas as relações amorosas têm muito a ver com ILUSÃO. Em certo sentido, nos apaixonamos por DETALHES da pessoa que têm o poder de fortalecer sonhos íntimos muito fantásticos, infantis, que alimentamos desde quando éramos menininhas e sonhávamos com príncipes e princesas - ou, menininhos, nos imaginávamos como super-homens com poderes surpreendentes. O primeiro momento, o da paixão, é então uma experiência mágica, pois é muito mais emoção que razão, é mais a nossa criança interior do que os aspectos adultos que têm que carregar tanta responsabilidade e renúncia. Ora, a internet é um meio de aproximação poderoso, que torna o mundo nosso vizinho, mas que é também um mundo muito mais ilusório do que o mundo real, do cheiro, do toque, do olho no olho. Assim, nas relações amorosas via internet as pessoas podem prolongar esta ilusão inicial, quando sentimos que o outro é tudo que precisávamos. A parte mais realística do encontro, quando se descobre os defeitos do outro, pode ser negada ou deixada de lado por mais tempo. O encontro corpo a corpo, quando temos que pensar não só nas palavras, mas no que vemos, ouvimos, tocamos e cheiramos é mais realístico. Concluindo: entendo que uma pessoa que conhece parceiros SÓ pela Internet não está aprendendo a ficar esperta (entendendo o que é verdade para além das palavras), e pior, fica fortalecendo demais aquele lado mais infantil de si mesma, uma certa ingenuidade nas relações, não aprendendo todo o lado de tolerar e negociar que é o que possibilita o amor mais comprometido. Pense bem, porque as pessoas a sua volta, fora da internet, não estão incluídas em seus "apaixonamentos"? Não prometem tanto quanto os príncipes da internet? Mas será que você vai ter uma vida de verdade se ficar sempre procurando reinos encantados? Internet, tudo bem... O amor pode acontecer em qualquer espaço. Mas só lá?