Vivendo sem os paisOs jovens na faixa dos 20 aos 29 anos mudam mais de cidade ou estado do que pessoas em qualquer outra idade. Segundo o IBGE, cerca de 4,1 milhões de jovens nessa faixa etária migram, por ano, principalmente por causa de trabalho ou estudo. Mas eles querem mesmo sair de casa? No fundo, não. Pesquisa da Unesco mostra que pelo menos 49,3% dos jovens brasileiros entre 15 e 29 anos não pensa em deixar a casa dos pais. E, entre os que saem, 25,5% retornam.
Gêmeas idênticas, as irmãs Renata e Natália Trefiglio, 22 anos, são fortes candidatas a entrar nas estatísticas dos que saíram por um tempo da barra da saia da mãe, mas voltaram depois. Estudantes de medicina, elas moram há dois anos e meio em São Paulo, mas morrem de saudade da família, dos amigos e da qualidade de vida de São José do Rio Preto, cidade do interior paulista. “Odeio São Paulo. Aqui a gente tem de ficar ligada em 220 volts o dia inteiro”, desabafa Renata.
O jeito foi transportar o mundo de lá para a metrópole. O apartamento virou a “república de Rio Preto”, ou quase. Além das gêmeas, a casa é habitada pela estudante de comunicação Heloísa de Oliveira, 21 anos (do mesmo município), e duas garotas de Araçatuba, cidade próxima. Pelo menos ali elas falam a mesma língua. Podem puxar erres e falar “porrrta” à vontade que ninguém tira sarro. “A gente conhece as mesmas pessoas, freqüenta os mesmos lugares”, diz Heloísa, que não era amiga das irmãs até ir morar com elas. Hoje, fazem parte da mesma turma, com as mesmas referências. E juntas devoram iguarias regionais como cachorro-quente feito apenas com molho de tomate e carne moída... Regado a Cotuba, um guaraná só encontrado nos arredores de Rio Preto.
Para a terapeuta Magdalena Ramos, especialista em família e professora da PUC-SP, os jovens estão adiando cada dia mais a decisão de cortar vínculos familiares. O motivo? Um misto de falta de oportunidade de trabalho com uma dose de comodismo. Sacrificar o conforto pela independência só mesmo quando encontram garantia da manutenção do padrão de vida. Afinal, porque se preocupar em pagar contas se na casa dos pais tudo acontece como que por milagre? “Atualmente não há grandes motivos para rupturas. Nas gerações passadas os filhos saíam de casa incomodados com a educação repressiva. Hoje os pais estão bem mais liberais”, diz a especialista.
| VIVENDO SOZINHA | |
| 01.Longe de casa | 02. Vivendo sem os pais |
| 03. Morando sozinha | 04. Aspectos positivos |